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20 de Agosto de 2019

Incomodado com as injustiças, ele adquiriu o senso de mudar realidades. Você conhece o autor Thiago Noronha?

Jusbrasil, Advogado
Publicado por Jusbrasil
há 3 meses

“Eu diria que não o direito em si, mas a advocacia me trouxe o poder-dever de mudar realidades ao meu redor. E isso é o que há de mais gratificante naquilo que faço hoje: resolver problemas jurídicos.”

Palavras do Thiago Noronha Vieira, 30 anos, nascido em Salvador/BA.

Instagram do Thiago: @thiago.nvieira

Residente de Aracaju/SE, cursou Comunicação Social e formou-se em jornalismo antes de graduar-se em Direito. Hoje, o Thiago é pós graduado em Advocacia Empresarial, Presidente da Comissão de Direito Privado e Empreendedorismo Jurídico da OAB/SE e autor na Comunidade Jusbrasil. Quer conhecer um pouco sobre sua trajetória até aqui?

Confira a entrevista!

Por que escolheu o direito?

Essa é uma pergunta interessante... Eu sempre me incomodei com certas coisas em nosso país, sobretudo as injustiças. O Brasil é essencialmente e fundamentalmente um país injusto. Por ser do interior me deparei desde cedo com realidades muito duras. E isso me trouxe um senso de querer mudar essas realidades de alguma forma.

Por um tempo, pensei que poderia mudar isso através do jornalismo. Contando essas histórias, expondo essas desigualdades, constrangendo alguns dos responsáveis. Porém, conforme fui avançando no curso e observando, principalmente, a realidade do mercado, percebi que “o buraco era mais embaixo”. E que mostrar não, necessariamente, transformava a vida das pessoas. Foi quando surgiu o direito.

Talvez, no começo, o direito foi só uma válvula de escape para uma profissão que estava em xeque (2009 foi o ano em que o STF derrubou a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão), porém se tornou muito mais. Eu diria que não o direito em si, mas a advocacia me trouxe o poder-dever de mudar realidades ao meu redor. E isso é o que há de mais gratificante naquilo que faço hoje: resolver problemas jurídicos.

Por que decidiu se especializar em direito empresarial?

Costumo dizer que tem determinadas áreas que nos escolhem. O direito empresarial é uma delas. E é engraçado porque tem conexão com resposta anterior: começou com uma coisa e terminou com outra completamente diferente.

O começo da advocacia é difícil. Viver de processo, sobretudo no começo, é mais difícil ainda. Naturalmente, diante de tantas incertezas vamos buscando nichos de mercado que tentem nos proporcionar uma espécie de “receita previsível”. Foi exatamente assim que surgiu a ideia do direito empresarial. Eu preparei um modelo de assessoria jurídica para empresas, coloquei debaixo do braço e sai nesse sol de 35 ºC em plena Aracaju para tentar convencer empresários a contratar meu serviço. Resultado: dei de cara com a porta fechada (várias vezes)!

A grande verdade é que estava utilizando a estratégia errada e procurando o público errado. Foi quando, pesquisando, descobri um grupo de jovens empreendedores voltados à inovação e tecnologia aqui em Sergipe chamado Caju Valley. O Caju Valley tinha encontros presenciais mensais onde se discutiam ideias de negócios (pitchs) e as pessoas ligadas ao ecossistema de startups local se reunia. Em 2016, ainda, comecei a frequentar esses encontros e não parei mais.

Estudar novos modelos de negócios, disruptivos, encontrar soluções jurídicas criativas, personalizadas e adequadas a esses clientes é uma das minhas missões pessoais. O mundo todo está sendo revolucionado com essa nova forma de gestar, gerir e expandir negócios. A minha pós-graduação seria em direito das startups, mas não formou turma então eu fiz o mais próximo, a base, que é a advocacia empresarial. Mas isso foi excelente para mim, porque startup é um estágio empresarial e não um tipo empresarial, na minha humilde concepção.

Então optei por essa especialização para me dar a base para poder atuar naquilo que acredito que é o futuro dos negócios.

Como você acha que o empreendedorismo pode impactar a carreira jurídica atualmente?

De várias formas! Como disse, o mundo está mudando e mudando muito rápido. Eu costumo brincar que eu “estou” advogado. Quando digo isso, as pessoas associam que eu desejo fazer concurso ou algo do tipo... mas não! O que quero dizer com isso é que eu não sei até quando a advocacia, na forma como é feita hoje, vai existir!

Várias profissões estão deixando de existir e muitas outras estão surgindo. Isso dá medo, eu sei, mas também é extremamente empolgante. Estamos na crista da onda de uma mudança que vai impactar tudo que concebemos enquanto mundo, trabalho, vida, etc.. O empreendedorismo, na minha visão, é o futuro de uma sociedade nos moldes que temos.

Infelizmente, no Brasil, temos uma série de travas (legais, tributárias e, principalmente, mentais) que impedem que o empreendedorismo seja a mola motriz da sociedade. Somos individualistas. Somos pessimistas. Somos rasos. Falo “somos”, incluindo-me nesse bolo! Compreender essas falhas e as mudanças inevitáveis é o primeiro passo para abraçar todas as mudanças e moldá-las para que sejam positivas e construtivas, inclusive na área jurídica. Hoje temos as legaltechs e lawtechs, como o Jusbrasil, facilitando a vida não só os profissionais da área jurídica, como também a população em geral. Temos, ainda, inteligência artificial, internet das coisas, economia compartilhada e várias outras soluções inovadoras para facilitar a nossa vida.

De que forma a Comissão de Direito Privado e Empreendedorismo Jurídico da OAB/SE atua para difundir a importância de tais temas?

A Comissão de Direito Privado e Empreendedorismo Jurídico (CDPEJ) da OAB/SE tem a missão justamente de superar as travas (legais, tributárias e, principalmente, mentais) e municiar os advogados e advogadas para um novo modelo de advocacia que está surgindo. Em pouquíssimo tempo (na verdade, já é realidade) as ações “ctrl+c/ctrl+v” serão feitas por robôs numa eficiência e assertividade muito maior do que um advogado.

O (A) advogado (a) que ainda está acostumado a (sobre) viver deste tipo de processo está com seus dias contados. O Processo Judicial Eletrônico é uma realidade. E cada vez mais estamos sofrendo influência da tecnologia no nosso dia a dia. Quem acreditaria, cinco anos atrás, que estaríamos fazendo audiências por videoconferência ou citando partes pelo whatsapp? Isso já acontece no Brasil e vai acontecer cada vez mais!

A Comissão, então, tem uma dupla missão: 1) desmistificar o conceito de empreendedorismo jurídico, longe da ideia de mercantilização e aviltamento de honorários; 2) Apresentar à advocacia as ferramentas necessárias e disponíveis para construir novos modelos de atuação. É promover uma reinvenção da prestação jurisdicional.

O que te despertou o interesse em escrever artigos?

Acredito que foi a junção de tempo disponível (na época que ingressei na advocacia, em 2016) e também uma aptidão natural à escrita. A minha primeira graduação, em jornalismo, certamente contribuiu. Eu, também, “saquei” lá atrás que os artigos deveriam dialogar com as pessoas e não serem artigos técnicos para que outros colegas leiam.

O que fez você começar a publicar no Jusbrasil?

Quando estava concluindo o curso de direito, já formado, eu sofri muita influência de um advogado que considero o meu mentor, Dr. Leão Magno Brasil Junior. Leão sempre foi um grande incentivador da ideia de construção de marcas jurídicas e do marketing jurídico. Ele me apresentou conteúdos como os de Lara Selem e Rodrigo Bertozzi. E, lendo-os, percebi que uma forma de gerar autoridade e diferenciação da minha advocacia seria produzindo conteúdo.

Poderia fazer isso num blog pessoal, mas em 2016 o mercado de blogs já estava sendo substituído por sites específicos para publicação de conteúdo. Quando percebi que o Jusbrasil se tratava de uma plataforma especializada em conteúdo jurídico, apostei (e isso também é empreender) que aqui seria um dos locais mais acessados e lidos do país em se tratando de assuntos jurídicos.

Bom, acho que acertei, né?! Heheh!

O que diferencia o autor que você é hoje, do autor que você era quando começou?

Duas coisas: tempo e sabedoria.

Em 2016, eu tinha muito tempo e pouca sabedoria. Poxa, eu fui advogar sem nunca ter passado por um estágio em escritório, somente os estágios obrigatórios da universidade. Mas eu sempre tive muita vontade de aprender e buscar. Com isso, eu dedicava muito tempo para explicar conceitos que, para mim, pareciam muito simples e naturais. Então, se puxar o histórico de meus artigos aqui, muitos são explicando conceitos e artigos e ramos do direito.

Porém, tem coisas que só a experiência nos dá. Então, nesses três anos, eu passei por mais de cem processos finalizados. Construí meu próprio escritório. Já vivi vitórias e derrotas na advocacia. Já fiz todo tipo de peça que existe em nosso ordenamento jurídico. Deparo-me cotidianamente com situações que só o dia a dia forense nos proporciona. Então hoje, com menos tempo, eu busco mais partilhar as coisas mais interessantes e reflexões das teses, temas e ideias com as quais me deparo.

Como acompanha o desempenho dos seus artigos?

Eu sou fissurado em métricas! Então, ao publicar, eu acompanho as estatísticas de meus artigos e monitoro os resultados. Como o tempo está escasso, confesso que não fico tão afoito analisando dia a dia. Até porque, hoje, eu consigo compreender, ao escrever, quando um artigo vai “bombar” ou não. Existem assuntos, mais práticos e voltados a dúvidas da sociedade que naturalmente são mais atrativos. Outros, mais técnicos e reflexivos que são voltados para um público interno. Mas eu sempre tento mesclar e produzir, hoje, o que me dá prazer.

A produção dos seus artigos já te trouxe alguma recompensa?

Muitas! Uma das minhas primeiras clientes trabalhistas veio através de um artigo publicado aqui. Essa cliente até hoje possui demandas comigo e, sempre que pode, indica-me para conhecidos. Além disso, através de artigos publicados há dois, três anos atrás, recebo ligações, e-mails e contatos de pessoas até os dias de hoje. No final de abril, por exemplo, recebi um convite de um doutorando da FGV para ser entrevistado para a tese dele sobre empreendedorismo jovem, justamente pelo case do Caju Valley num artigo publicado aqui.

Quanto tempo você disponibiliza para participar da comunidade Jusbrasil?

O Jusbrasil é uma ferramenta indispensável no trabalho, sobretudo na busca de jurisprudências e precedentes para ações. Então, todos os dias, nem que seja uns 10 a 15 minutos eu tiro para ver o que aparece no feed e separo um ou dois artigos para ler e/ou comentar.

Você lê artigos no Jusbrasil também? Quais autores você recomendaria?

Leio, muitos por sinal. Tem alguns que recomendo: Fátima Burégio; Pedro Custódio; Lorena Lucena; Mariana Gonçalves do Minutos de Direito; e Nunes, Duarte & Maganha (NDM) Advogados.

O que considera essencial num artigo?

Vou ser sincero, como aliás me é peculiar.

Eu sou contra “receita de bolo” em artigo. Acho que cada artigo tem uma forma a depender do espírito que se cria. Como falei na resposta a respeito de como comecei a escrever e como escrevo hoje, penso que cada artigo tem um jeito de conversar com um determinado público. Tem artigos que faço que são mais voltados ao público em geral, esses normalmente eu penso numa dúvida. Penso que a melhor forma, seria perguntar: “como uma pessoa leiga jogaria isso no google?”. A partir disso eu construo o título e parto para a construção do artigo em si.

Porém, tem outros artigos que são mais reflexivos, mais profundos, mais técnicos e que não necessariamente seguem essa fórmula da pergunta-resposta. Essencial é, talvez, saber para quem se escreve.

Quais conselhos daria para o jovem advogado e recém-formado?

Tenha paciência. O começo na advocacia é muito difícil, ainda mais nos dias atuais. Porém, a internet e as redes sociais encurtam distâncias e promovem mudanças para quem sabe aproveitar e surfar nessas ondas. Antes de querer buscar uma área para se especializar, descubra e defina urgentemente o que você NÃO quer fazer de jeito algum! Por exemplo, não faço criminal e família. Porém, tenho advogados parceiros que fazem essas áreas e aos quais indico quando chega alguém com problemas jurídicos nessas áreas.

Com o tempo, como inclusive já disse, existem áreas que vão nos escolhendo, naturalmente. Não ter pressa é importante, mas também não ficar parado. Aproveite e agarre as oportunidades que surgirem. Lute pelo direito do seu cliente e tente sempre deixar a sua marca naquilo que se propõe a fazer.

Este conteúdo faz parte da missão da nossa comunidade: Responder todas as questões jurídicas. Ainda não conhece a comunidade Jusbrasil? Saiba mais sobre como ajudamos o Brasil a ser um país mais justo.

17 Comentários

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Que mentalidade sensacional, @thiagonvieira. Muita coisa importante pra advocacia nesse contexto tecnológico em que vivemos: empreendedorismo, presença digital, linguagem acessível... Ah, eu não sabia que você era daqui de Salvador hahah

Massa demais! continuar lendo

Oiê! @nataliafoliveira obrigado pelos comentários.

Eu só nasci em Salvador, não me considero propriamente soteropolitano. Fui criado em Alagoinhas/BA (inclusive, fica o registro porque Mainha me deu uma bronca por não citar minha terra de afeto).

Obrigado vocês por viabilizarem essa entrevista no mês do meu aniversário. Um presente e tanto! continuar lendo

Aplausos para o Dr. Thiago Noronha Vieira e para o JusBrasil pela excelente entrevista !! Caríssimo Dr. Thiago, a Advocacia é uma profissão que nunca vai deixar de existir, atravessou milênios e sempre se adaptou. É verdade, caríssimo, é a área do Direito que nos escolhe, sem dúvida. E digo mais, a área em que você trabalha hoje pode não ser a área mais adequada à sua experiência amanhã. O Direito é dinâmico e fascinante. continuar lendo

O Direito é dinâmico e fascinante, de fato, Dra. @jurirejane !
E é isso que me faz ter tanto amor por ele. Obrigado por suas palavras! continuar lendo

Grande @thiagonvieira , entrevista sensacional!

Saiba que você é um membro muito importante pra nossa comunidade. Lembro como se fosse ontem da nossa conversa, quando nós aqui estávamos tentando entender o que precisamos fazer para incentivarmos mais Thiagos aqui dentro!

Muito obrigado por cada contribuição e tenha o maior sucesso do mundo. Estamos juntos nesse barco, meu amigo.

Grande abraço! continuar lendo

Fala Igão, tudo bom? (Sente a intimidade, galeris!)

Fico feliz com todo esse reconhecimento. Eu sou apenas mais um dentre tantos. Há muita gente boa aqui, citei só alguns.

Forte abraço a todos vocês! :) continuar lendo

Obrigada pela entrevista e por toda a prestatividade, @thiagonvieira !
Muito bom ter profissionais como você aqui na comunidade, sempre com uma visão inteligente e realista sobre a advocacia.
Também não sabia que é nosso conterrâneo, haha!
Abraço e conte com a gente! continuar lendo

Ô @julianajennifer , obrigado você por ter me escolhido justo no meu mês de aniversário.

Olha, essa entrevista foi um presente e tanto. Sou muito grato por tudo. Sobre ser conterrâneo, já expliquei no comentário à Natália. Salvador foi onde nasci, mas Alagoinhas é minha terra natal de coração.

Abraços e conte comigo também! :D continuar lendo